PODE PARAR
MPF pede suspensão de licenciamento de projetos de terras raras na região
Órgão quer que projetos aguardem conclusão técnica definitiva sobre possível presença de materiais radioativos
Publicado em 14/09/2026 às 15:15
O Ministério Público Federal (MPF) solicitou à Justiça Federal que suspenda os processos de licenciamento dos projetos de exploração de terras raras Colossus e Caldeira, previstos para ocorrerem em Andradas e região. A medida, segundo o órgão, deveria permanecer até que a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) apresente uma avaliação técnica definitiva sobre a eventual presença de materiais radioativos nos resíduos e efluentes das atividades.
O projeto Colossus é conduzido pela Viridis Mineração, em Poços de Caldas, enquanto o Caldeira pertence à Meteoric Caldeira Mineração e está previsto para a região de Caldas. Os dois empreendimentos já possuem Licenças Prévias concedidas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam).
A manifestação do MPF ocorreu dentro de uma ação civil pública apresentada por entidades da sociedade civil. No processo, o Ministério Público atua como fiscal da ordem jurídica e se posicionou favoravelmente, de forma parcial, ao pedido de urgência apresentado pelos autores.
Apesar da solicitação, os licenciamentos não estão automaticamente suspensos. A definição depende de decisão da Justiça Federal, e não existe, até o momento, decisão judicial que tenha anulado as licenças concedidas pelo órgão ambiental estadual.
As empresas responsáveis pelos projetos, por sua vez, questionam a necessidade de uma nova paralisação e afirmam já contar com avaliações realizadas pela autoridade nuclear.
O posicionamento do MPF ocorre na mesma semana em que a Viridis obteve financiamento de R$ 77,5 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Os recursos serão destinados à implantação do Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR), uma planta-piloto voltada a testar, validar e aprimorar tecnologias que deverão ser utilizadas na operação comercial prevista para 2028.
Possível presença de materiais radioativos é foco da discussão
Entre os principais pontos levantados pelo MPF estão as dúvidas técnicas relacionadas aos materiais que serão envolvidos nas etapas de exploração e beneficiamento das terras raras.
A preocupação está concentrada especialmente nos resíduos sólidos e efluentes que podem apresentar elementos relacionados às séries do urânio e do tório. Para o órgão, os estudos disponíveis no processo ainda não permitem determinar de maneira definitiva se será necessário algum tipo de controle radiológico.
No Projeto Caldeira, documentos técnicos da Feam e o Estudo de Impacto Ambiental apontaram atividade das séries de urânio e tório de até 13,74 Bq/g em amostras de resíduos sólidos.
Depois da homogeneização, outras amostras registraram 11,15 Bq/g, 10,35 Bq/g e 11,64 Bq/g. Os valores mencionados pelo MPF superam o limite de 10 Bq/g previsto nas normas consideradas no processo.
Na avaliação do Ministério Público, os resultados indicam a necessidade de esclarecimentos antes do prosseguimento do licenciamento.
Em relação ao Colossus, o órgão afirma que ainda não haveria informações suficientes sobre a composição e os riscos dos efluentes que serão gerados pela mineração.
Diante disso, o MPF defende que a ANSN realize novas avaliações e apresente uma conclusão técnica definitiva.
Empresas dizem que já passaram por avaliações da ANSN
A Viridis afirma ter encaminhado à ANSN um Relatório de Informações Preliminares produzido a partir de mais de 6 mil amostras de minério, estéril, produto e rejeito.
Segundo a empresa, a autoridade nuclear fez uma avaliação independente e concluiu que os níveis de radioatividade estavam abaixo dos limites que demandariam controle regulatório.
A companhia também informa que a ANSN realizou inspeção em 17 de junho de 2026, quando foram coletadas e analisadas amostras no Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR).
Ainda de acordo com a Viridis, após a inspeção, a instalação foi considerada isenta de controle regulatório radiológico.
A Meteoric também afirma ter passado por procedimento semelhante. Conforme a empresa, uma inspeção regulatória foi realizada pela ANSN na planta-piloto em 16 de junho, incluindo medições de radioatividade e coleta de amostras.
A companhia afirma que o relatório produzido posteriormente classificou a instalação como isenta de controle regulatório. Segundo a Meteoric, as amostras apresentaram radioatividade total abaixo de 10 Bq/g.
Para a empresa, a avaliação realizada pela ANSN encerra a discussão sobre os riscos radiológicos relacionados às atividades que já são realizadas e às previstas para o Projeto Caldeira.
Licenciamento estadual ou federal também está em discussão
A ação judicial trata ainda da competência para autorizar os empreendimentos.
As entidades responsáveis pelo processo defendem que o licenciamento deveria ser realizado em âmbito federal pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) caso seja confirmada a utilização ou o processamento de materiais radioativos.
O MPF menciona a legislação que atribui competência federal para empreendimentos que utilizem ou processem materiais nucleares ou radioativos.
Ao mesmo tempo, o próprio órgão ressalta que é necessário primeiro determinar o enquadramento radiológico dos materiais para definir qual autoridade deve conduzir o licenciamento.
Dessa forma, a conclusão da ANSN é considerada pelo MPF uma etapa essencial para solucionar a discussão sobre a competência do processo.
Justiça Federal ainda decidirá sobre o pedido
Agora, caberá à Justiça Federal analisar o pedido de urgência apresentado pelo MPF e decidir se os licenciamentos deverão ser interrompidos.
A solicitação inclui a paralisação de possíveis deliberações relacionadas às Licenças de Instalação até que a ANSN apresente uma conclusão definitiva sobre a atividade radiológica dos resíduos e efluentes.
A avaliação também poderá influenciar a definição sobre qual órgão terá competência para conduzir os licenciamentos.
Se for confirmada a necessidade de controle federal sobre materiais radioativos, a discussão poderá envolver o Ibama. Caso isso não seja constatado, permanece a discussão sobre a competência do licenciamento estadual.
No julgamento definitivo da ação, o MPF também defende o acolhimento dos pedidos apresentados pelas entidades caso as avaliações técnicas confirmem problemas relacionados à competência ou a inviabilidade socioambiental dos projetos diante dos riscos apontados.
Por enquanto, entretanto, o que existe é um pedido de suspensão apresentado pelo Ministério Público Federal. A decisão sobre a paralisação ainda cabe à Justiça Federal.
Locais de exploração
O projeto de exploração de terras raras está localizado na área da cratera de Poços de Caldas, que possui aproximadamente 800 km² e abrange os municípios de Poços de Caldas, Andradas, Caldas e Águas da Prata. Estimativas apontam que a região pode concentrar cerca de 300 milhões de toneladas de terras raras.
Fonte: André Vince
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